Seguindo a Tradição de ÒRISÀ
 
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Com o argumento de "somos brasileiros e não africanos", mas vestindo roupa tradicional Yorùbá, com sapatos, contas e pulseiras importadas, rechaçam quaisquer mudanças, que não a exterior, estética e cosmética. Não enxergam estar traindo seis mil anos de ÒRÌSÀ por 300 ou 400 anos de afrobrasilidade.

Em eventos e congressos, ou mesmo em despretenciosas reuniões, quando o "africanizado" fala de sua experiência, de sua escolha, é hostilizado como traidor. A ele não é permitido ser tradicionalista, e ter abandonado o Candomblé por sua gênese, seu pai e sua mãe, uma vez que o Candomblé Ketu descende da Tradição de ÒRÌSÀ.
Mas seus escritos são disputados, suas palestras são gravadas, seu conhecimento do ASE é sugado, embora ninguém dê a ele crédito religioso, principalmente se sua iniciação se processou do outro lado do Oceano, ou com sacerdotes Yorùbá. Esquecem-se talvez, de onde vieram seus avoengos, e quem os iniciou. E este cidadão civil brasileiro, que deseja tão somente conviver pacificamente com sua cidadania religiosa Yorùbá, está sujeito a pressões constantes, e tem que seguidamente se defender de agressões ridículas e de um desconhecimento religioso quase infantil.

É assim, quando ouve que:
o culto aos ÒRÌSÀ está perdido em território africano, permanecendo vivo no Brasil o OPA ORANÌYÁN, monolito milenar erguido em ILE IFE, Nigéria, símbolo de nossa civilização, não existe mais;
ÒRÌSÀ OSOSE é desconhecido em Ketu - Benin e só no Brasil seu culto persiste;
a Tradição de ÒRÌSÀ é religião proibida na Nigéria e adjacências;
o Yorùbá, em ritos de iniciação, raspa a cabeça por motivo de pediculose, enquanto o brasileiro, por ser higiênico, não precisa disto
os cultuadores de OBATALA precisaram receber do Brasil um OPA SAWOORO (bastão com guizos), que não era mais utilizado por lá por desconhecimento, e que aqui permanecia.

E tantas outras sandices, que enumerá-las se tornaria cansativo.

E quando tais palavras são apoiadas por sacerdotes afro brasileiros conceituados ou, o que é pior, por professores e acadêmicos, pode-se pensar se não é um movimento orquestrado, almejando por resultado a destruição do que a África tem para nos oferecer.

Os que crêem firmemente que ÒRÌSÀ mora na África, pensam que :
O culto lá é dinâmico e correto;
ORUNMILA é o indicado por OLODUMARE, o deus criador, para apoiar e ensinar o homem, através do Corpo Literário do IFA;
Nada se resolve com feitiçaria, o ÒRÌSÀ é o caminho;
O iniciando tem pleno direito de aprender, e ao sacerdote cabe o dever de ensinar;
A tradição oral deve se ater ao AWO, o segredo, ao sagrado, aquilo que só se aprende nos rituais do Templo;
Quanto mais culto for o sacerdote, mais poderá ele servir ao ÒRÌSÀ (Mãe Aninha, famosa ÌYÁLÒRISÁ do início do século 20, no Ile Ase Opo Afonja, em Salvador - Bahia, já dizia "Quero todos os meus filhos doutores, de canudo na mão e anel no dedo, amando e servindo a SÀNGÓ";
O orgulho pela religião dos ÒRÌSÀ tem que ser pregado e levado a efeito efetivamente, principalmente pelos sacerdotes e deles se esparramando em ASE por todos os crentes;
As famílias devem cultuar ÒRÌSÀ unidas;
As crianças têm que ter, desde a tenra infância, ensino religioso no Templo;
O respeito aos mais velhos é essencial ao culto;
Temos que ter sacramentos, utilizá-los e divulgá-los, para que sejamos respeitados como religião, e exigindo de outras confissões religiosas respeito por estes sacramentos, por nossos rituais e sacerdotes, e que possamos ter convivência pacífica, uma vez que o Brasil é pluri racial, multi-étnico e religioso.

E mais que tudo isso, os tradicionalistas crêem que ÒRÌSÀ veio originalmente da África, tendo instalado seu culto no Brasil e no Mundo Novo, conforme previsão milenar de Orunmila.
Que o conhecimento brasileiro, disperso, sincrético, alterado, pode ser acrescido de muito ASE, bastando para isso que as pessoas se abram para ele. E, quando o sacerdote afro brasileiro nega esta vinda de ASE da África, insistindo que o culto lá morreu, mas se mantém vivo e forte no Brasil, que o culto estático e inalterado de 400 anos (palavras dele) é mais "puro" que este mesmo culto dinâmico em terras Yorùbá, aquele outro sacerdote, o afro descendente, o dito "africanizado" sente então que o Oceano Atlântico é uma grande avenida, e que ele, ao voltar pleno de ASE, de conhecimento, de descobertas, de sabedoria, e de boa vontade para divulgar tudo isso, está na realidade andando na contramão do ÒRÌSÀ, no contrafluxo do ASE oficial afro brasileiro.

E só resta a ele negar a si próprio esta brasilidade religiosa, sem contudo negar o direito ao sacerdote do Candomblé de falar e agir assim. Porque ele aprendeu às próprias custas, que seu direito esbarra na fronteira do vizinho, e gostaria muito que sua fronteira fosse respeitada.
Transforma - se então, no brasileiro Yorùbá, cidadão com dupla cidadania, civil e religiosa, ambas de pleno exercício, com as graças dos ÒRÌSÀ.



*ÌYÁLÒRISÁ Sandra Medeiros Epega
ÌYÁLÒRISÁ do Ile Leuiwyato - Templo de Culto aos ÒRÌSÀ

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