BUDISMO:
O que é ser Zen
 
MATÉRIAS ESPECIAIS

Inúmeras vezes fui consultado sobre "o que significa ser Zen". Os conceitos populares a respeito do tema, tão em moda hoje em dia, variam como variam as pessoas que se interessam e julgam entender essa coisa meio esotérica, misteriosa e hermética. Todas as interpretações são válidas, por isso todo mundo se sente no direito de opinar e dar seu parecer. Discute-se o assunto em rodas de bar, na praia, em novelitas da Globo e em academias de ginástica. Ou não se discute. Ser Zen tornou-se corriqueiro: "fulano é Zen", "sicrano é Zen", "você hoje está meio Zen". São caricaturas de nossos frívolos tempos computadorizados: muita informação e pouco conteúdo. Diante disso, vamos tentar lançar, até onde for possível, alguma luz sobre o assunto.

Para princípio de conversa, vejamos o que não é ser Zen:

 Ser Zen não é ser "calmo".
 Ser Zen não é levar a vida despreocupadamente, como que flanando na estratosfera.
 Ser Zen não é andar pela rua olhando as estrelas, em perene devaneio.
 Ser Zen não é estar alienado da vida.
 Ser Zen não é estar sempre à margem dos problemas sérios do cotidiano.
 Ser Zen não é viver no nirvana, seja lá o que se entenda por isso.
 Ser Zen não é, bem..., nada do que se escuta por aí.

Um pouco de história talvez nos facilite dar uma idéia, mesmo que pálida, do que seja o Zen-Budismo. Nos primeiros séculos da era cristã, um monge budista indiano, Bodhidharma (440-528), resolveu levar o Budismo para as plagas mais orientais do continente asiático. Pegou um barco e aportou no sul da China, de onde penetrou o país adentro. Por ser um mestre de grande sensibilidade e sabedoria, não foi difícil começar a formar um grupo de discípulos e admiradores. Sua fama se espalhou e chegou a ser adulado por príncipes e soberanos. Com o passar do tempo, o Budismo de Bodhidharma foi influenciado e se amalgamou com a filosofia chinesa. Afinal, o Budismo tinha muitos pontos em comum com a filosofia local, o Taoísmo. Desta mescla, resultou o Zen-Budismo (o Ch´an chinês). Foi um terreno fértil para a propagação do tradicional e milenar Budismo, pré-existente no sub-continente indiano. O fato é que esta filosofia (ou religião, se preferirem), amaciou-se perante a leveza da brisa do Tao chinês. A ênfase, antes centrada na leitura e nos estudos dos Sutras (textos sagrados), em uma liturgia sempre presente, sem falar, é claro, na meditação, deslocou-se de forma decisiva para a prática. A prática individual zen-budista passou a consistir, acima de tudo em sentar-se, o mais freqüentemente possível, em zazen (za=sentar; zen=meditação).

É através do zazen que os zen-budistas muitas vezes experienciam, em diversos graus, a Iluminação (o Satori, no Japão). Este enfoque sobre o zazen foi levado às últimas conseqüências por outro mestre, o japonês Dogen Zenji (1200-1253), que, em viagem de peregrinação de 5 anos à China, entrou em contacto com a tradição de Bodhidharma. Não devemos, agora, entrar em detalhes sobre o Budismo chinês e, posteriormente, o japonês. Diremos apenas que Dogen foi um dos maiores literatos que o mundo já conheceu. Sua monumental obra é reconhecida até hoje por fontes extra-religiosas. Seu trabalho máximo foi o Shobogenzo, enorme compilação, completa e profunda, sobre a filosofia e os preceitos do Zen-Budismo. Os monastérios budistas proliferaram no Japão, onde os mestres passaram a ser procurados por inúmeros discípulos em busca do saber.

Mestre Dogen, de volta à sua terra, passou a pregar que a prática intensiva e individual valia mais que a leitura dos textos sagrados. Foi a vitória sobre a moda livresca, bem ao jeito ocidental. De nada valeria ter-se uma biblioteca na cabeça se não se desenvolvesse a intuição e a abertura sutil para dimensões situadas além da compreensão comum. E tal dádiva e conquista só poderia ser alcançada pela meditação. Seja qual for a Escola zen-budista, a da Terra Pura, a Rinzai, a Sotô, a Obaku e outras, variam os métodos de se entregar ao zazen, não o âmago da experiência. A Iluminação tornou-se uma conseqüência do meditar, embora nunca se deva entregar ao processo com este objetivo.

Mas, afinal, o que vem a ser a Iluminação? Bom, aí as palavras nos faltam e nos traem. Definir é impor limites, principalmente diante de uma vivência e de um insight tão impactante e profundo, que muda por completo uma vida. Digamos, apenas, que seria sentir e (entre)ver a realidade subjacente ao mundo, a unicidade total com todos os seres e com o universo. Mas a conseqüência disso é que passamos a viver no mundo a pleno vapor, radiantes por estarmos aqui presentes, experimentando todas as emoções de qualquer mortal, e, acima de tudo, convictos de que nossa boa jornada na Terra é a realização plena de um caminho que nos foi traçado antes de nascermos. Esqueçamos as estrelas, os sonhos, o "lado de lá". Eles existem tão fortes como antes. Mas estamos aqui "embaixo", este é o cenário onde devemos nos movimentar, vivendo intensamente cada momento.

É impossível reconhecermos um iluminado. Eles são aparentemente tão iguais a todos nós... Mas, por dentro, estão animados por um inabalável estado de espírito que os torna leves e felizes. Há uma história, talvez elucidativa, que diz: "antes da Iluminação, as montanhas são montanhas, os rios são rios; durante o processo de aperfeiçoamento, as montanhas deixam de ser montanhas, os rios deixam de ser rios; após a Iluminação, as montanhas voltam a ser montanhas, os rios a ser rios".

O Zen não é verbalizável. Se nos aventurarmos além do que ousamos expor, as armadilhas da incompreensão nos espreitarão a cada palavra.

*André Medeiros é Astrônomo e estudioso em Budismo pela Escola Soto de Zen-Budismo. Tel.: (21) 9957-0940

 

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