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AUTOCONHECIMENTO: BHÁVANA, A Atitude do Discípulo |
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MATÉRIAS ESPECIAIS |
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Existe uma palavra interessante no sânscrito, bhávana. Seu significado literal e o mais conhecido é: o ato de causar, produzir efeito, manifestar, nascer. Pode também significar o sujeito que realiza essas ações. Bhávana vem da raiz verbal bhu, que quer dizer tornar-se, ser, existir. Existe um outro significado, que é o de atitude interna. Pode também englobar as ações concretas decorrentes dessa atitude interna. Aliás, de alguma maneira nossas ações visíveis vão transparecer as motivações internas que as geraram. Talvez motivação interna expresse com mais precisão o significado de bhávana que quero abordar aqui.
Se uma pessoa dá uma esmola para se vangloriar, sua motivação é de vaidade. Se, ao contrário, ela dá uma esmola porque se sentiu tocada profundamente pelo sofrimento de outra pessoa, sua motivação será de compaixão. O ato será o mesmo nos dois gestos de caridade, mas as motivações serão opostas. É claro que uma pessoa mais sensível será capaz de perceber as diferenças entre essas duas pessoas. Um terá uma postura arrogante e quase não perceberá a pessoa que recebe a esmola. Já o outro, além de uma postura mais humilde, caridosa e compassiva, estará profundamente conectado com a pessoa que recebe a esmola. Jesus ressalta essa diferença na parábola do dízimo, quando ele valoriza mais a pobre viúva que dá umas poucas moedas, mas que era tudo o que ela possuía, ao contrário do homem rico, que fazia um gesto sem importância para ele. Os mestres são capazes de perceber nossas verdadeiras motivações, o que realmente existe em nossos corações. Lembro-me também de um outro exemplo. Há alguns anos atrás fui no aniversário de minha irmã. Como estivesse passando por um momento financeiro difícil, decidi por não lhe comprar nenhum presente, até porque, sendo ela uma pessoa de posses, eu não teria condições de dar-lhe alguma coisa do seu agrado. Quando lhe cumprimentei pelo aniversário, ela foi logo perguntando pelo presente. Ao que respondi que não tinha dinheiro para comprar-lhe um bom presente. Ela prontamente me censurou dizendo que o importante não era o preço do presente e sim seu valor afetivo, o significado materializado naquele objeto do carinho que há entre nós. Ela estava me questionando a cerca das minhas motivações. Isto é bhávana. Sobre isto vivenciei recentemente um caso interessante. Um homem me procurou porque gostaria de conhecer meu trabalho. Ótimo. Convidei-o a participar de uma aula, o que ele prontamente aceitou. Mas, ainda no telefone, estranhei o fato dele dizer que já tinha um certo conhecimento de Yoga, começando a citar logo em seguida autores famosos e palavras em sânscrito desconexas. Tudo bem. No dia seguinte, ele compareceu no horário marcado e fez a aula. Ao final, se disse satisfeito, pegou um livro que havia trazido, começou a folheá-lo e leu algumas passagens aleatórias. Ficamos nessa situação por quase uma hora. Uma pessoa que chegasse naquele momento pensaria que era ele o professor e eu o aluno. O que não teria nenhum problema, se fosse essa a nossa proposta inicial. Mas eu não o escolhi como professor - embora talvez ele tenha me escolhido como aluno. Não considero que ele tenha algo a me ensinar - que não a paciência e o acolhimento para ouvi-lo ou uma firmeza para dar-lhe um limite. É por isso que os sábios dizem que é preciso ser um bom discípulo para se conseguir ser um bom mestre. Quase duas horas depois ele finalmente foi embora. Ele ia dar aula de yoga em uma academia. Ele se intitulava um 'divulgador' do yoga. Pode ser que eu esteja enganado, mas a princípio, é por essas e outras que sou favorável à regulamentação da profissão. Fiquei mais admirado foi com a contradição desse homem. Ele queria aprender, mas, em realidade, não era esse o seu bhávana. Ele não estava realmente aberto para aprender, pelo contrário, ele gostaria de encontrar alguém que escutasse sua erudição - oca e sem sentido. Naquele momento, eu era esse ouvinte.
Por causa disso as escrituras dizem que, para receber o ensinamento, o buscador sincero deve se aproximar com humildade e reverência diante do mestre. A humildade é o reconhecimento de quem não sabe e a reverência, o de quem sabe. Sem elas, o mestre não poderá transmitir-lhe nada, não por uma incapacidade do mestre, mas porque o aluno não está pronto para aprender. Não está maduro para receber o ensinamento. Sua mente ainda é arrogante. O problema é esse, ele pensa que sabe alguma coisa. O vaso ainda está cheio de conceitos e por causa disso não há espaço para receber a Verdade. O tempo ainda precisa depurá-lo até que ele se encontre em condições de ouvir. A capacidade de ouvir é um grande indicador da maturidade do aluno. Se alguém fala muito, isto é sinal de ansiedade e de uma mente agitada e sem foco.
Quando um buscador adquire o bhávana de discípulo, ele passa a ouvir com o coração. Ou melhor, é a capacidade de ouvir com o coração que define o bhávana de discípulo. Capacidade de ouvir é uma premissa e que o ensinamento ressoe no coração, outra. Esse bhávana irá definir a sinceridade de propósitos de quem está buscando. Aliás, percebi naquele homem que ele se escondia atrás de sua (aparente) erudição. Por trás havia uma grande dor. Ele começava a perder os movimentos dos braços e os médicos não conseguiam diagnosticar o que poderia estar causando essa doença. Seu corpo estava definhando e ele se escondia atrás de sua mente. No final das contas, o que ele tinha era um grande medo da morte.
Esse era realmente seu bhávana original - aliás, o de todos nós. Só que nele não era consciente. Por diversas vezes ele me disse que teria vida longa. Estava tentando acreditar nisso.
Ele era um divulgador do yoga e tinha que cumprir sua missão de levar a mensagem do yoga para as pessoas. Concordo plenamente com Swami Chinmayananda, quando ele recomendava aos seus alunos a não ensinar Vedanta. Deveriam sim é compartilhar seus aprendizados e principalmente suas dúvidas. Como diz Fernando Pessoa, 'ahhhe, estou farto de deuses e semideuses!' Por que será tão difícil assumirmos nossa natureza humana? Como pretendemos ser eternos se não conseguimos ser mortais? Como reconhecer nossa perfeição se não somos capazes de aceitar nossas vidas em um contínuo vir a ser? O humano se torna divino exatamente quando reconhece sua natureza inacabada e seu eterno projeto por se fazer. Isso sim é perceber a felicidade que já se é, não um estado acabado, mas algo em movimento, dinâmico, contraditório, vivo!
Por fim, bhávana, em Vedanta, significa ver Deus em tudo. Segundo Swami Dayananda, 'bhávana é a atitude de reconhecer o Senhor, Ishvara, em tudo.' Ele diz que bhávana é anterior ao entendimento de alguma coisa. É a pessoa ter respeito e humildade, acima de tudo, para com todas as formas da criação porque tudo faz parte do corpo de Deus. Amigos, que possamos ter sempre uma atitude de respeito e devoção para com tudo e com todos. Que possamos continuamente perceber o divino no mundo a nos ensinar o caminho dos nossos corações. Alexandre Perlingeiro *alexandre.perlingeiro@tantrayoga.pro.br Vice-presidente da Associação Brasileira de Dakshina Tantra Yoga
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