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FÉ: Quando o mal é necessário |
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MATÉRIAS ESPECIAIS |
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Muitas pessoas querem seguir uma religião, mas observa-se que não existe nelas nenhum interesse autêntico nisso. "Querem" porque é bom reunir-se com pessoas para pensar em coisas elevadas, reafirmar crenças ou compartilhar experiências espirituais.
Quando não estamos sozinhos, sentimo-nos mais seguros, mais convictos de nossa posição, pois isso indica que compartilhamos nosso espaço com os outros. Quando alguém pensa o mesmo que nós, ficamos de certa forma aliviados: "se eu estiver errado, pelo menos não estou sozinho". Em termos de fé cristã, na oração que o Mestre ensinou, ele não dizia "Pai Meu".
Muitas coisas nos intrigam na Bíblia. Certas afirmações como: "Amarás ao teu próximo como a ti mesmo" (Marcos 12, 31), "é mais fácil um camelo passar pelo fundo duma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus" (Mateus 19,24) e "Não julgueis, para que não sejais julgados" (Mateus 7, 1), são algumas delas. "Como amar ao próximo?" - diria alguém. "Logo eu que sou um cara mais egocêntrico, voltado assim mais para mim mesmo e mal disposto a compartilhar seja lá o que for... Não ser rico: negar o conforto, a abundância, o luxo. E não julgar... Como? Como de uma hora para a outra eu conseguiria amar uma outra pessoa como se ela fosse eu?" Mas o mais importante: muitos templos não respondem nada disso. Só afirmações, afirmações, afirmações! Mas por que? Como seguir Cristo? O que fazer para conseguir cumprir o que Jesus ensinava? Por completa desorientação, muitos saem a trilhar vários caminhos: a droga, a promiscuidade, o crime, o isolamento social, etc., que são atitudes problemáticas que nos privam muitas vezes da saúde, da liberdade, do respeito, e até de nós mesmos. Outros seguem o único caminho que podem trilhar: procurar cumprir os ensinamentos e continuar questionando. Na sede de lançar uma pálida luz que seja sobre essas sombrias indagações, alguns passam a ler livros que esclarecem alguma coisa daquele amontoado de dúvidas. As filosofias orientais, as práticas como a meditação, a yoga, as artes marciais, os oráculos, o estudo do paranormal, da psicologia, da física quântica... Tudo aquilo que faça alguma referência ao que chamamos de movimento "New Age" ou "Nova Era" parece ser uma tentativa de resposta a todas essas dúvidas.
O homem está criando aversão a crenças. Ainda não se sabe ao certo o que é fé, mas pode-se afirmar que fé não é crença. Crenças são idéias sobre coisas das quais não tivemos experiência alguma. Por mais que forcemos nossas idéias das coisas espirituais para que acreditemos que elas realmente existem, isto não irá mudar nada em nós. Outra desvantagem da crença: ela não nos muda. Permanecemos os mesmos. Não existe renovação, nem o renascimento tão recomendado - "Em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus" (João 3, 3). Daí a procura do misticismo. O místico possui recursos para essa experiência de Deus, seja ela qual for - imaginação ou não. Mas por falar em imaginação e experiência espiritual...
Na etapa deste ensaio, terei que explanar algo pessoal. Numa das sessões de regressão à infância que fiz eu fui até o dia em que nasci. Era um quarto e eu via tudo de um dos cantos superiores. Estavam lá minha mãe, meu pai, eu e... "Diga Charles!", pediu a psicóloga. Mas eu estava tão embaraçado com a quarta personagem - um adolescente - que preferia escondê-la. Para mim era claro quem ela era, mas era muita presunção minha... "Você tem o compromisso de não esconder nada", insistiu. Então liberei. "É Cristo. Mas não entendo o que ele está fazendo aqui. Ainda mais na forma de um adolescente. Parece tão irreal..." "Pergunte a ele" "Ele disse que me julgo muito separado dele. Veio nesta forma para que eu o considerasse mais próximo, com menos autoridade. Disse que aquela atitude não me ajudava de forma alguma".
Eu estava separado de Deus por um problema com a autoridade. Será que era tão impossível assim Jesus assistir todos os partos do mundo? Por que ele não poderia presenciar justamente o meu? Abria-se outra brecha nas várias camadas de crenças depositadas ao longo tempo em minha mente. Crenças que me separavam da experiência de Deus. Não que eu me considerasse uma pessoa má, mas certamente, náo me via à altura da presença de Deus junto de mim.
O mal necessário
Mas os questionamentos com relação às coisas espirituais não param aí. A figura do ser mau, do Diabo, não se encaixa naquela antiga luta do bem contra o mal. É difícil enfiar na cabeça que as pessoas más ficam para sempre no inferno ardendo, chorando e rangendo os dentes. Não será o inferno ardente e eterno uma metáfora precisa para a situação interior dessas pessoas, que pode inclusive refletir-se exteriormente na vida presente ou no pós-vida? Não dá para entender o papel do mal no nosso mundo, sem que esse papel esteja relacionado a um plano maior, no qual ele teria uma atividade importante. Mas tudo isso não passará de crença, se não tiver uma aplicação prática e uma ligação explícita com os ensinamentos do Mestre. Então vamos procurar abordar o mal primeiramente em nosso nível humano: os obstáculos da vida são impostos pelo Demônio; as guerras são obras do Diabo; os psicopatas estão possuídos. O mal é um tabu intocável e subtraído de relacionamento em nossa sociedade. As pessoas ditas religiosas não ousam travar amizade com os pecadores; os "loucos" são encarcerados em hospícios; os criminosos são simplesmente privados da liberdade, quando não assassinados oficialmente ou "por debaixo dos panos"; nosso lixo em grande parte ainda não é reciclado; a corrupção está em toda parte; doenças incuráveis, furacões, terremotos, bombas... Existem tentativas inovadoras de relacionamento positivo e construtivo com o mal, mas ainda são muito pequenas. Relacionamento com o mal... Mas qual a base cristã sobre isso? Cristo diz algo a respeito? Não. Cristo não só disse algo a respeito, como fez muito a esse respeito.
Sob o ponto-de-vista bíblico, o episódio de Cristo no deserto é muito elucidador. Ele foi conduzido pelo Espírito "ao deserto, para ser tentado pelo Diabo" (Mateus 4, 1). Fica claro aqui que houve uma finalidade específica na condução do Filho do Homem ao deserto. E que fim é esse? Só podemos deduzir isso pelo modo como Ele esteve com o pai da mentira. Ele não deu as costas, rotulando-o, criticando-o ou fazendo o que muitos de nós, no nosso dia a dia, fazem com as pessoas à volta. Pelo contrário, ele apontava o que estava correto fazer em contradição às insinuações do anjo das trevas. O que é totalmente coerente com o que ensinou mais tarde: "Não julgueis, para que não sejais julgados" (Mateus 7, 1-2). Ao expulsar demônios, o filho de Deus não deixava de interagir com o mal, como no episódio do homem possuído pelo espírito que se chamava "Legião" em Marcos 5. Então, até o espírito imundo foi adorá-lo (o mal venerando Jesus?) e conseguiu com que Ele o deixasse entrar na manada de porcos que estava perto. Ele também aconselha não resistirmos ao mal (Mateus 5, 39), atitude que entendemos melhor com base no que aqui já foi dito. E Ele foi de uma profundidade psicológica abismal quando fez a afirmação sobre o julgamento aos outros. Em psicologia é muito bem sabido que quanto maior a ênfase e a emoção envolvida na crítica a uma pessoa, proporcionalmente maior é a carga de conflito do crítico em relação àquele aspecto em si mesmo. A esse aspecto dá-se o nome de "sombra".
Existem outras pistas para essa espécie de "finalidade do mal" indicada aqui. Em Jó, Satanás apresenta-se perante Deus (mas ele não fica só no inferno?) e lhe faz uma observação sobre Jó. Deus concede a Satanás completa liberdade para este influir na vida do servo divino, contanto que não tocasse em seu corpo. Não vou me referir às questões levantadas por Jung em "Resposta a Jó" (Ed. Vozes), já extensivamente discutidas. Certas sociedades utilizam-se da pena de morte para reprimir com maior eficácia o crime. Esta eficácia, porém, acabou sendo compensada com uma grande avalanche de crimes cometidos por... crianças. Parece que nossa psiquê coletiva sempre dá um jeito de nos propor problemas cada vez mais elaborados a cada vez que nos desvencilhamos dos mais simples de forma irresponsável. É como se um oculto diretor do palco da vida questionasse: "É muito fácil para você eliminar seus criminosos. Mas vamos ver como se sairá com crimes cometidos por mentes inocentes...". Todo esse isolamento dos pecadores reflete no interior de nós mesmos. Existem sociedades indígenas que usam dos sonhos como trabalho interior em toda a tribo. Os ladrões são tolerados pela sociedade e suas famílias acabam devolvendo os artigos adquiridos ilicitamente. A loucura e nenhum dos sintomas do tão propalado stress são seus conhecidos. O mal é tido como uma parte natural dentro das possibilidades da totalidade da sociedade ou do indivíduo. A perfeição é a atitude de abertura para com todos os aspectos possíveis.
Agora, existe sim algo que pertence exclusivamente ao mal. E quando cedemos a esse "algo", fatalmente caímos na teia do Maligno. Quem assistiu ao filme "Advogado do Diabo" percebeu a essência do mal e o que podemos fazer quando estamos "possuídos" por ele, se não nos questionamos. Esse elemento tão corruptor é o orgulho. Por ele, o homem já guerreou, matou milhões de pessoas, matou pai e mãe, matou filhos, espalhou a discórdia, a luxúria e a loucura por onde passava. É esse mesmo orgulho que nos fecha os olhos para a verdade, privando-nos daquela abertura à vida já discutida. Ora, parece que nesse ponto ocorreu uma inversão de valores. Parece que o mal está no ladrão, no homicida, no estuprador, no corrupto, assim como naquele que "bate de frente" com essas pessoas. É o mesmo orgulho que faz parte do criminoso, que rouba do ladrão, mata o que matou, estupra o que estuprou, que desmoraliza o corrupto, que vinga o mal com o mal. Daí o Filho de Deus ensinar: "Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente. Eu, porém, vos digo que não resistais ao homem mau; mas a qualquer que te bater na face direita, oferece-lhe também a outra e ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa; e, se qualquer te obrigar a caminhar mil passos, vai com ele dois mil." (Mateus 5, 38-41). Porque aquele que vinga o faz mais por ter tido seu ego ferido do que pela privação causada pelo criminoso. Qualquer fato na vida que ousar diminuir nosso ego um milímetro que seja pode fazer-nos atuar como um verdadeiro ditador. O que Cristo disse acima sobre oferecer a outra face, largar também a capa e caminhar mais mil passos é melhor apreciado se interpretado psicológica ou simbolicamente. Mas nada impede que aquele que compreende o ensinamento simbolicamente, como está sendo feito aqui, o faça literalmente. E Gandhi é um exemplo impressionante.
Mas nossas doutrinas insistem na rejeição ao mal. Colossenses 2, 16-23, tem algo mais a esclarecer sobre isso: "Ninguém, pois, vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa de dias de festa, ou de lua nova, ou de sábados, que são sombras das coisas vindouras; mas o corpo é de Cristo. Ninguém atue como árbitro contra vós, afetando humildade ou culto aos anjos, firmando-se em coisas que tenha visto, inchado vãmente pelo seu entendimento carnal, e não retendo a Cabeça, da qual todo o corpo, provido e organizado pelas juntas e ligaduras, vai crescendo com o aumento concedido por Deus. Se morrestes com Cristo quanto aos rudimentos do mundo, por que vos sujeitais ainda a ordenanças, como se vivêsseis no mundo, tais como: não toques, não proves, não manuseies (as quais coisas todas hão de perecer pelo uso), segundo os preceitos e doutrinas dos homens? As quais têm, na verdade, alguma aparência de sabedoria em culto voluntário, humildade fingida, e severidade para com o corpo, mas não têm valor algum no combate contra a satisfação da carne." Mas muitos de nós, parecendo seguir o caminho divino (culto aos anjos), temos nos inchado orgulhosamente com nosso entendimento carnal (não inspirado em Deus), e "não retendo a Cabeça" (a razão, o bom senso). Porém a cabeça faz parte do corpo todo "que vai crescendo com o aumento concedido por Deus". Na ânsia de termos fé (que para nós não passa de um amontoado de crenças), expulsamos o bom senso, como se este fosse contrário às coisas divinas. Essas mesmas crenças pregam sacrifícios do corpo com certa "aparência de sabedoria" mas "não têm valor algum no combate contra a satisfação da carne", uma afirmação de alto valor psicológico. Muitos sabem que a repressão é a pior atitude que podemos tomar contra certos sentimentos e pensamentos. Se queremos ser mais espirituais, não vai adiantar nada a "severidade para com o corpo". A humildade sim, porque sendo humildes, aceitamos que Deus sabe o que é melhor para nós, não querendo ultrapassá-lo, inflando-nos de ar. Essa abertura mental e postura humilde não são algo fácil de se conseguir. Sofremos muito ao reconhecer cada aspecto vil que antes projetávamos no outro. Isto porque essa atitude requer esse reconhecimento, e todos nós temos partes más. Essas são nossas cruzes. Daí Cristo dizer: "Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz, e siga-me" (Lucas 9, 23). Sim, é preciso que cada um carregue sua própria cruz para que tenhamos uma sociedade mais humana, tolerante e pacífica. É fazendo esse sacrifício individual, interiormente, que conseguiremos um mundo melhor exteriormente. Cada um fazendo sua parte não irá sobrecarregar o próximo na condução da grande cruz da humanidade. Cada um carregará seu quinhão de cruz, mais leve ou mais pesado, conforme seu próprio merecimento, mas de qualquer forma ajudando todos os homens a subir aos picos espirituais da humanidade.
*Por Charles Alberto Resende |
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