|
|
|
SONHOS : Descubra a arte de interdependência |
| |
MATÉRIAS ESPECIAIS |
| |
|
Segundo o dicionário Aurélio, um dos conceitos de educação é "o aperfeiçoamento integral de todas as faculdades humanas". Esta idéia é feliz na medida em que deixa em aberto os possíveis significados do termo a uma época de constantes mutações. E se mudam os conceitos, conseqüentemente os agentes transformadores virão a transformar-se, num processo interativo e orgânico de metamorfose para nível superior de humanização. Tornam-se necessárias definições mais precisas quanto ao papel de cada instituição no comprometimento com a educação e que correspondam melhor às exigências da atualidade.
Ao contrário do que nos afirmaria uma mãe contemplando seu filho recém-nascido, não se nasce humano, mas com potencialidades especiais que dependerão de uma preparação específica para seu desabrochar completo. A diferenciação dessas capacidades também não é algo simples. Há aspectos do homem que são inseparáveis da porção animal, vegetal e mineral que o compõem. Mas o caráter específico que lhe confere o cunho humano em relação às suas outras partes, é tarefa da educação. Dois grupos se destacam nesse trabalho de vital importância, embora sua influência na educação não seja exclusiva: a escola e a família.
É incumbência dos pais o desdobramento inaugural das capacidades dos filhos. Aspectos como o relacionamento com as outras pessoas, o nível de expressão de sentimentos, o modo como vão encarar a si mesmos e ao mundo, etc., são primordiais para o trabalho que se seguirá na escola. Quer a vida que todo esse emaranhado em que vai se tornando a criatura seja um resultado não apenas da vontade controlada e racional dos pais, mas também, e até principalmente, do lado desconhecido, autônomo e muito sutil de suas personalidades.
A carência de racionalidade resolve-se com conhecimento do assunto, alguma acessoria de pessoas experientes, boa vontade e paciência. Isto está inevitavelmente ligado a uma boa informação quanto à fonte desses recursos, o que permitirá livre acesso a eles, e à questão sócio-econômica.
Já o aspecto incerto de nós mesmos não se restringe a fatores locais, mas é inerente à espécie humana como um todo. Como saber, por exemplo, se não estamos cobrando de nossos filhos o que desejaríamos para nós? isto é correto ou não? será que os estamos aceitando como são? porém, como confrontar liberdade com limite? que fatores pessoais ignorados fazem com que eu não me dê bem com eles? haveria uma resposta definitiva e geral para todos os pais e filhos? São perguntas nada fáceis de responder. Panacéias muitas vezes tornam-se remédios amargos e até suicidas se não os identificamos a tempo.
Esse motivo obscuro e ambíguo era trabalhado em tempos antigos por sacerdotes, feiticeiros, sábios, reis e profetas. Os templos ou lugares sagrados sempre foram consultórios terapêuticos da alma humana. Nosso lado inconsciente sempre foi eficazmente tratado de forma intuitiva, com respeito e temor, atitude que o homem moderno perdeu e rotula de supersticiosa e primitiva. Um templo dedicado a Apolo, em Delfos (Grécia), construído há milênios, adverte: "Homem, conhece a ti mesmo!". É óbvio que é impossível conhecer-se plenamente, mas uma disposição nesse sentido fará muito mais que qualquer coisa.
Porém, o primeiro fator fica totalmente dependente do autoconhecimento, pois este lhe confere a impressão de espontaneidade, de integração à maneira de ser da pessoa, tirando-lhe o caráter mecânico e técnico que o conhecimento dá, que não é a base de uma relação verdadeira, ainda mais em se falando de pais e filhos. Basta saber o que aconteceu com a personagem central do livro "Dibs em busca de si mesmo", de Virgínia M. Axline, uma história real. A criança era superdotada, mas escondia seu dom sob uma máscara de retardamento mental, usada inicialmente como escudo contra os pais, cujo tratamento se resumia a constantes testes e ensinamentos.
À escola cabe o dever de vincular ainda mais o indivíduo à sociedade, de consolidar essa ligação. Sua função é diferenciar, de modo ainda mais peculiar, o que já é básico e está fundamentado pelos pais. Assim, faculdades tais como a criatividade, a percepção, o intelecto e o sentimento, estarão vinculados à imagem que a pessoa faz de si, de como se impõe e se isenta de limites, do modo como consegue abstrair o que é concreto e vice-versa..., aptidões estas iniciadas na família. Neste ponto, convém citar Jung: "O que importa não é o grau de saber com que a criança termina a escola, mas se a escola conseguiu ou não libertar o jovem ser humano de sua identidade com a família e torná-lo consciente de si próprio". Vemos, portanto, que cabe à escola assistir ao parto psíquico, ao rompimento do cordão umbilical psicológico, tornando o jovem mais próximo da sociedade, afastando-o o suficiente da família para que se destaque, se individualize.
A vida é um processo constante de união e separação, daí seu dinamismo, sua continuidade rica em eventos. Se o filho é preso demasiadamente ao seio da família, a segunda fase é prejudicada. O jovem torna-se apático, esconde-se atrás de atitudes fixas e procura ter uma visão estática do mundo, para que a separação não o ameace, para que não perca o paraíso materno, para que não morra por não poder respirar outro ar que não o sangue parental que lhe vem do umbigo. Aliás, este torna-se o centro de sua atenção.
Se a criança é desligada cedo demais, se é rejeitada, recriminada, envergonhada, ela fugirá e procurará sempre aquele lugar onde não precise suar seu rosto. O que representar o útero, aí estará ela, embora sempre com um pé atrás, nunca se entregando ao carinho, nunca cedendo. Seu reflexo terá a seus olhos uma aparência desengonçada, feia, diferente de tudo e de todos. Como o vampiro, é preferível que não se veja no espelho, sua inveja sempre sugará a gente normal.
Uma das recomendações constantes do maior livro de sabedoria chinesa, o I Ching, é aceitar o que o momento traz, adaptando-se a ele ao compreender a exigência que faz. Como exemplo cita a água, que não hesita ante qualquer obstáculo, sempre procurando o lugar mais baixo ao se mover, nunca procurando "passar por cima", mas superando-se a si mesma, numa flexibilidade inspiradora.
Tanto mais infeliz será o indivíduo quanto mais resistir a esta dialética. As conseqüências que podem desencadear os pais que procuram impedir o desenlace final para a maturidade podem ser desastrosas. A escola tradicional, que procurava abarrotar de conhecimentos o jovem aluno, não pretendia libertá-lo, mas torná-lo dependente como aquele que, para saciar o apetite do faminto, dá-lhe peixe, ao invés de ensiná-lo a pescar. Aliás, esta é a atitude típica dos pais que prendem os filhos à infância: dão-lhes tudo, menos desafios. Depois ameaçam-nos de expulsão da fonte de prazeres que se tornou a casa paterna, se não for submisso. Falta-lhes saber que "educação é a arte de fazer e deixar fazer, de ser e deixar ser".
Por Charles Alberto Resende
|
|
|