Crônica:
I Ching das Patricinhas, por Ricardo Kelmer
 
MATÉRIAS ESPECIAIS

A noite estava animada e eu tomava a minha vodca espremido entre algumas pessoas no balcão do bar. Bem ao meu lado duas belas garotas, estilo patricinha, comentavam sobre determinado rapaz numa mesa próxima. Uma delas parecia interessada nele e não sabia se devia ir ou não até a mesa. Foi quando escutei algo estraordinário:

- Já sei! Vou consultar o I Ching.

Tomei um susto. Olhei discretamente e percebi que eladigitava seu celular. I Ching pelo celular..., eu pensei, sem acreditar. Mas era verdade. As patricinhas esotéricas estavam ali ao lado lendo na telinha o resultado enquanto riam e teciam considerações a respeito. Como a música estava alta, não pude saber qual foi o hexagrama. Mas fiquei encucado. O I Ching para decidir se devia ou não ir à mesa do rapaz... O oráculo tem validade num caso desse? Ou eu estava sendo extremista?
É sabido que a cultura esotérica tornou-se popular e, mais que isso, massificada. Uns aproveitaram a quantidade de informações circulante para, de fato, se aprofundar no esoterismo mas a grande maioria, no entanto, ateve-se apenas aos aspectos mais visíveis e superficiais. E como esoterismo pop nunca será esoterismo de verdade, seu sucesso decretou sua deturpação. Quase tudo que se vê por aí como esotérico são apenas caricaturas de ensinamentos profundos que durante séculos foram passados de iniciado a iniciado. Pode-se dizer, ironicamente, que o que circula por aí é a parte esotérica do esoterismo, se é que isso é possível. Coisas da nossa incrível sociedade de consumo...
Mesmo disseminadas e desvirtuadas na promiscuidade da mídia fácil e das comunicações instantâneas, as profundas tradições místicas e religiosas continuam com sua essência guardada aos que se dispõem ao esforço do aprendizado. São como algo valioso que pode até circular entre muitos mas reconhecê-lo de verdade, tem-se de passar pelo inevitável guardião da iniciação.

Veja o caso dos oráculos. Eles são exelentes instrumentos de auto-investigação psicológica e podem ser úteis na resolução de problemas os mais diversos. O Tarô e o I Ching, por exemplo, se tornaram populares. No entanto muitos os utilizam sem seriedade alguma e sem noção do que verdadeiramente representam. Para que o processo seja eficaz, o consultor necessita parar, silenciar, se concentrar e meditar tranquilamente sobre a questão. No caso do I Ching o uso ritualístico das varetas requer seus vinte minutos e durante o ritual a mente se aquieta, se recolhe e se afasta do barulho exterior. Essa interrupção do diálogo interno se aquieta, se recolhe e se afasta do barulho exterior. Essa interrupção do diálogo interno proporciona um estado de espírito propício para que o consultor possa captar a essência da mensagem que virá. No entanto, a mentalidade apressada do Ocidente não gostou de ter que perder tanto tempo e trocou as 49 varetas pelas 3 moedas e assim gasta apenas dois minutos. Atualmente, pela internet, com um clique apenas se consulta o I Ching pelo celular, para você consultar na fila do "Maque Dônaldis" ou no intervalo da novela. Será que é valido? Ou estarei agindo como um purista dos oráculos, antiquado e intransigente?

Sim, é válido. Mas é válido apenas para quem está preparado para receber a revelação. Porque tudo pode ser um oráculo, até mesmo a numeração de uma cédula ou som das folhas ao vento. No entanto, se alguém busca o oráculo com intenções frívolas, ele responderá com uma repreensão ou então ironizará o consultor com uma resposta estapafúrdia como faria qualquer mestre. Se alguém procura revelações. As respostas sempre virão, sim, mas o espírito não estará preparado para captar sua essência. No filme Matrix Neo consulta o Oráculo e entende que ele não é o Predestinado quando na verdade o Oráculo diz apenas que ele ainda não está preparado para entender que de fato é. Isso mostra que a resposta dos oráculos são claras ou obscuras dependendo de quem pergunta.

Quanto à bela patricinha e seu dilema, espero que tenha se saído bem. Mas, cá para nós, sde nossa amiga tiver que depender do I Ching para arrumar marido, talvez seja mais produtivo encurtar a saia ou apelar para o silicone.

*Ricardo Kelmer

 

Bemzen © Copyright 1999 • BZ Agência Online - Todos os direitos reservados
Desenvolvimento: BZ Agência Online Comunicação • Design: BZ Agência Online