Aumenta a procura por consultores de energia

A procura por especialistas que ajudam a planejar o racionamento de energia aumentou entre 30% e 100%. Este é o momento de maior visibilidade na carreira destes especialistas.

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A vez dos consultores de energia

Nos últimos vinte dias, o movimento nos escritórios dos consultores Edgard Ferreira Franco, Rafael Herzberg e Norberto Nunes Duarte aumentou de maneira fora do comum. As consultas cresceram entre 30% e 100%. Engenheiros eletricistas, esses profissionais vivem agora um dos momentos de maior visibilidade em suas carreiras: eles são especialistas no assunto mais comentado no país atualmente: o racionamento de energia.

Em meio a tantas discussões, surpresas e indefinições a respeito da crise energética que assola o país - nem mesmo o governo sabe ao certo o que fazer - os consultores que atuam no controle do consumo energético estão recebendo solicitações o tempo todo por parte de empresários preocupados com o reflexo do racionamento nos seus processos produtivos.

Enquanto as grandes indústrias já controlavam o uso da energia há algum tempo, investindo em controle de consumo e co-geração, as médias e pequenas sentem agora que um racionamento imposto pelo governo poderá render-lhes grandes prejuízos. A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) alerta que muitas empresas estão se precipitando e tomando decisões erradas.

"A batata quente está na mão do consumidor, não mais do governo", diz Rafael Herzberg, dono da consultoria Interact. "Até agora, as empresas sempre quiseram se livrar desse tema. Hoje, quem enxergar o racionamento como um negócio tende a ganhar muita visibilidade dentro das empresas". Cada um terá de descobrir alternativas, estudar o assunto e se manter informado, completa Herzberg. "Racionamento significa aumento de custos e problemas na produção. Haverá muito espaço para o profissional com vontade de procurar soluções."

Não são muitos no Brasil os profissionais que dominam o assunto. Por isso é que chovem agora clientes para os poucos. E, dependendo das decisões do governo esta semana em relação às medidas do racionamento, eles poderão de fato rir à toa.
Por enquanto, as empresas estão, na maioria dos casos, procurando orientações. "A hora de ganhar dinheiro de verdade com isso ainda não chegou", diz Franco. Mas se forem realmente obrigadas a enfrentar um apagão ou pagar multas caso não reduzam o consumo, as empresas terão de agir rapidamente. Se o controle do uso da energia apertar, dizem esses engenheiros, a tendência é que empresas saiam à caça de especialistas como eles, e o mercado para profissionais da área tende a se aquecer. "Acredito que totos os meus colegas de profissão terão um bom lugar ao sol agora", diz Rafael Herzberg, um dos pioneiros na área no país. Ao mesmo tempo, o assunto tão em voga tende a estimular jovens recém-formados a ver o setor energético como um grande filão de mercado para os próximos anos.

A profissão, na verdade, não é nova. Herzberg atua na área há 26 anos, Franco há 16 e Duarte há pouco mais de dez. Nesse período, eles ajudaram grandes indústrias a controlar, no médio e longo prazo, o consumo energético. Com modernos programas de medição, os consultores conseguem reduzir em média 15% dos custos com energia controlando a demanda e o fator de potência.

Edgard Franco, da Engecomp, tem clientes como Coca-Cola, Sabesp, Votorantim, Kaiser e Siemens. Enquanto para a maioria das empresas de médio e pequeno porte a energia elétrica oscila entre 2% e 5% do total de despesas e nunca foi uma grande preocupação, para alguns grandes consumidores o assunto é efetivamente significativo: a Estação Elevatória de Santa Inês, da Sabesp, por exemplo, paga uma conta mensal de energia de cerca de R$ 2 milhões.

Desta vez, a crise que até o presidente Fernando Henrique Cardoso diz ter sido pêgo de surpresa, passou a assustar qualquer consumidor. "Enquanto as frases do governo eram na linha do 'estamos com problema energético' ou 'poderá faltar energia', a situação era uma. Quando disseram 'vamos racionar', o negócio inverteu", diz Norberto Duarte. Com pós-graduação em energia pela Universidade de São Paulo (USP) e especialização em otimização de energia pela EFEI, Duarte viu o movimento da sua consultoria aumentar entre 30% e 40% nos últimos quinze dias. Ele também tem dado algumas palestras sobre o tema em algumas indústrias, como a própria concessionária Bandeirante de Energia, de São Paulo. No início de junho, ministrará o curso "Redução de custos com energia elétrica", da Manager Assessoria em Recursos Humanos. "A procura pelo curso tem sido muito grande", adianta o presidente da Manager, Ricardo Xavier.

Oferecer esse tipo de orientação para os consumidores tornou-se bom negócio para quem resolveu se antecipar. A Interact criou dois novos produtos: um "kit apagão" (planilhas de cálculo, orientações para conservação de energia e dicas para a compra de geradores) e um seminário sobre racionamento para empresas, que acontecerá no dia 31 de maio. O número de visitas no site da empresa passou de 3 mil no último mês para mais de 6 mil.

"Tenho recebido diariamente e-mails de pessoas pedindo informações sobre como economizar energia", conta o consultor.

As notícias de que o Brasil está enfrentando um problema sério de energia não são nenhuma novidade para quem atua nesse mercado. O "headhunter" Augusto Dias Carneiro, especialista em energia da consultoria Korn/Ferry, uma das maiores do mundo em recrutamento de executivos, lembra-se de uma frase visionária de um consultor sueco em um seminário realizado em Estocolmo em 1997. "Ele dizia que o Brasil vive num 'box': não pode crescer menos de 1,2% ao ano para manter a taxa de emprego e não pode crescer mais de 4% porque vai faltar energia e educação. Não deu outra."

(Valor)

   
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